Entre linhas, agulhas e pontos, histórias que não podem ser esquecidas ganham novas formas de ser contadas. É assim que dois artistas do Seridó potiguar, Eunice Farias, de Caicó, e Luiz Antônio de Souza, de Ipueira, participam de um projeto nacional que utiliza o bordado como instrumento de preservação da memória de homens e mulheres que foram perseguidos, censurados, presos, torturados, exilados ou mortos durante a ditadura militar brasileira.
Inspirado na frase da jornalista Hildegard Angel — “O Brasil tem pouca memória da Ditadura” — o projeto Fio às Cinco em Pontos, em parceria com o Coletivo Linhas da Gamboa e o Instituto Zuzu Angel, convidou homens e mulheres a bordarem personalidades que tiveram atuação ou foram vítimas da repressão durante os chamados anos de chumbo. A proposta transforma o bordado em uma espécie de documento artístico. Cada ponto carrega uma história e cada imagem busca preservar a memória de pessoas que tiveram suas trajetórias marcadas pela censura, perseguição política, prisão, tortura, exílio ou morte.
Do Seridó para o Brasil
Entre as muitas mãos que
participam do projeto estão duas representantes do Rio Grande do Norte. De Caicó, a historiadora
Eunice Farias escolheu homenagear o sabugiense Zoé Lucas de Brito Filho,
conhecido como “Zoezinho”, morto em São Paulo durante o período da ditadura. A escolha, segundo Eunice,
também tem um significado afetivo e regional. “Escolhi homenagear Zoé Lucas
de Brito Filho por ser potiguar e tão próximo a nós, da cidade vizinha de São
João do Sabugi. Seu irmão, João Batista de Brito, foi meu professor”, relata a
historiadora.
Eunice também chama atenção para o longo silêncio em torno do período histórico. “O tema ditadura por muito tempo foi silenciado, mas sabemos quem ganha com o silêncio dessas atrocidades cometidas pelo Estado”, afirma. Esta é a sexta participação de Eunice em projetos do coletivo.
Luiz transforma memória em
pontos e linhas
De Ipueira, o jovem Luiz
Antônio de Souza, formado no curso Têxtil do IFRN, também integra o projeto.
Reconhecido pelo trabalho detalhado com a arte do bordado, ele escolheu
homenagear o natalense Luís Ignácio Maranhão Filho, que atuou como advogado,
professor, jornalista e deputado estadual.
Para Luiz, o bordado pode cumprir uma função que vai além da estética. “Acredito que o bordado também pode ser uma forma de preservar histórias. Assim como um fio se transforma, ponto a ponto, em uma imagem, a memória também é construída através das pessoas, dos acontecimentos e dos registros que permanecem”, explica.
Segundo o artista, a intenção foi transformar parte da história potiguar em uma obra produzida manualmente. “Mais do que retratar um rosto, a proposta foi transformar uma parte da história potiguar em algo feito à mão: um registro delicado, mas cheio de significado”, acrescenta.
Arte que percorre o país
Os trabalhos produzidos pelos
dois seridoenses passarão a integrar uma exposição que circulará pelo país. A
primeira apresentação acontecerá em Belo Horizonte (MG), no antigo DOPS, espaço
que carrega marcas da repressão política durante a ditadura. O local, que funcionou como
órgão de repressão, foi cenário de prisões e torturas durante aquele período da
história brasileira, tornando a escolha do espaço especialmente significativa
para uma exposição dedicada à preservação da memória.
Assim, os fios que saíram de Caicó e Ipueira atravessam o Seridó e chegam a outros lugares do Brasil, levando consigo histórias de potiguares e transformando a arte do bordado em uma forma de lembrar. São muitas mãos, muitos pontos e diferentes histórias. Mas uma mesma proposta: fazer da arte um caminho para que a memória permaneça viva.
Fonte: MATERIAL RETIRADO DO TEXTO DA JORNALISTA ANNA JAILMA/CARLOS FELIPE
Nenhum comentário:
Postar um comentário